Notícias de Londres



Do complexo do Alemão ao American Ballet.


Neste natal, o Brasil deu um presente raro ao Reino Unido: em vez de futebol, dança, em cadeia nacional. O documentário "Only when I dance", que conta a saga de dois jovens bailarinos, moradores de áreas pobres do Rio de Janeiro, foi exibido pelo Canal 4 no dia 25, às 13h 25 - horário nobre na TV aberta britânica. "Queríamos contar uma história diferente da violência e do tráfico de drogas nas favelas. Foi quando deparamos com esses grandes talentos", diz a directora inglesa Beadie Finzi. Ela encantou-se com Irlan Silva, de 19 anos, criado no Complexo do Alemão, um dos morros mais violentos do Rio, atual integrante do prestigiado American Ballet Theatre, e com Isabela Coracy, de 18, recém-contratada pela São Paulo Cia. de Dança, depois de temporada com Deborah Colker. Foi Christina Daniels, produtora brasileira radicada em Londres, quem descobriu Irlan e Isabela, há quatro anos "Via só coisas bem negativas na imprensa e fiquei com vontade de mostrar outra realidade", diz ela.

Fruto de uma parceria anglo-brasileira entra a Jinga Pictures e a Tigerlily Films, o documentário mostra a dedicação e o triunfo desses dois disciplinados adolescentes que têm em comum - além do talento - a disposição para contornar obstáculos. Enquanto participam de concursos nacionais e internacionais de dança, eles seguem as actividades escolares e enfrentam anos de estudo de balé clássico no Centro de Dança Rio, que é o ponto de partida do filme.

A "raça" de todos os envolvidos impressiona e inspira. Isabela tem de conciliar as dificuldades do dia a dia com a preparação física e psicológica para os testes. Sua luta cotidiana é um dos pontos altos do filme, embora não tenha alcançado ainda o mesmo sucesso de Irlan Silva. Aos 19 anos, ele é um fenômeno que tira o fôlego do espectador, especialmente quando dança Nijinsky (1890 - 1950) na Suíça, arrancando lágrimas de uma das juradas. "O filme me ajuda a ficar cada vez mais conhecido, porque está sendo exibido em vários festivais de cinema do mundo", diz o bailarino. Ao falar de "Only when I dance", o jornal americano "The New York Times" chamou Irlan de "Billy Elliot da vida real". Mas irlan não concorda muito com a comparação. "O que vejo de mais semelhante entre a vida do protagonista e a minha é a resistência que meu pai teve em relação ao balé clássico quando comecei a dançar", diz ele. "Mas, depois de assistir ao meu primeiro espetáculo, ele começou a aceitar minha decisão e apoiar meu sonho de em me tornar bailarino." O filme já foi exibido nas mostras do Rio e de São Paulo, mas ainda não tem data para estrear no Brasil.

O Centro de Dança Rio, onde Irlan e Isabela estudaram, é um berço de excelência, mesmo sem nenhum incentivo público ou privado. Instalado no Bairro do Méier há 20 anos, vem formando e exportando talentos regular e surpreendentemente. O principal deles é Thiago Soares, primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres, também mostrado no documentário. Apesar de enorme sucesso, a escola do Méier Luta para sobreviver. "Fomos aprovados para captar R$ 185 mil anuais pela Lei Rouanet, mas estamos tentando prorrogação da aprovação pela terceira vez devido à dificuldade de encontrar patrocínio", afima Mariza Estrella, fundadora e directora do Centro. A escola tem 450 alunos e 80 bolsistas, entre eles Rafaela luiza de Oliveira, de 9 anos, que Mariza já identifica como um talento em potencial. A vida de Rafaela também é marcada por dificuldades financeiras. "Ela tem quatro irmãos e mora na subida do morro de Lins de Vasconcelos", diz a directora.

"Tia Mariza" é quase uma mãe para os alunos de sua escola. NO filme ela vibra com cada vitória de Irlan, ao mesmo tempo que aconselha Isabela a dançar conforme a música, com o carinho de uma (fada) madrinha. Ela inscreve e acompanha os alunos nas principais competições de dança no Brasil e no exterior e, não raro, contribui também com dinheiro do próprio bolso. "Com US$ 200 mensais podemos custear as despesas de alunos de famílias pobres que mais se destacam no circuito de concursos e festivais", diz ela. No site do filme (www.onlywhenidance.com), há um canal para doações para o Centro de Dança Rio, o The vida Ballet Fund.

(Juliana Resende, de Londres - revista Época)

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