Dois pra cá, dois pra lá

Boca do Lobo
A Dança Contemporânea - Mudanças de Conceitos.

Tempos idos de minha "primeira juventude", afinal estou na minha segunda e ainda tem muito tempo para pensar em -vida adulta- no conceito da vida chata e sem brilho que tantos pintam a responsabilidade e os efeitos do cotidiano realista.
Voltando ao foco, em tempos idos de minha primeira juventude eu acreditava que a dança estava fadada a dois fins trágicos, não bastasse um apenas dois amplificando a bossa.

A primeira eu acreditava que o ballet classico iria encalacrar como uma dança sem evolução, sem direção, absolutamente travada no tempo e ensimesmada.

No contraponto a dança contemporânea representante da modernidade tal qual a própria Modernidade também fadada a um fim não menos dignificante, com movimentos difusos, músicas histéricas e corrupção da estética neo-classica (repetidas vezes revisitada pelo Ballet classico).

Resumindo, uma pecava por ser excessivamente travada nos mesmos paradigmas e outra por romper com coisas demais, criando uma estranheza natural no público.

Não é de agora que meus conceitos começaram a mudar radicalmente, talvez porque a mais ou menos mais de 15 anos os "dois movimentos" reforçaram suas bases em aspectos totalmente inovadores.

Como "recente" bailarino entendo muito da rigidez do ballet, e realmente, para quem pouco entende parece ter pouco para ser inovado, mas em discussões acaloradas com colegas do setor percebo que na verdade existe um setor inesgotável na exploração dentro do Ballet, bem como em toda forma de expressão. A atuação.

É simplesmente divino quando aquele personagem daquele conjunto específico se faz enxergar por estar de fato atuando, sendo um personagem, não mais ou menos caricato do que o ator-bailarino sente que deve ser.

E ainda sob a ótica da dança, da atuação, vejo que a dança contemporânea perdeu aquela vontade toda de "quebrar paradigmas" e voltou a lançar mão de recursos líricos, o que eu, particularmente amante de todas as artes clássicas, simplesmente tenho adorado.

Este espetáculo, "A Boca do Lobo", assisti de assalto na primeira vez, sem ter a menor idéia do que esperar do mesmo, nenhum review, nada realmente simbolizando o que eu iria ver (e como é difícil descrever essas coreografias de dança contemporânea, talvez eu falhe na minha tentativa, mas vou mesmo assim tentar), mas fui por motivos talvez fúteis, talvez propositais da própria divulgação do espetáculo. Fui por conta das imagens, das fotos.

A exposição no mezanino no SESC de Copacabana me encantou, cores, formas, corpos, conceitos, simplesmente um choque de elementos distintos e totalmente incoerentes, à primeira vista e impressão. Desta forma no mesmo dia que fui para ver tão somente a exposição, fiz questão de voltar para a casa, pegar minha carteira de estudante e comprar a meia-entrada (sou no caso realmente estudante, ainda tenho tal direito, e como um estudante BRASILEIRO sou depalperado).

Como ilustrador que sou, e carente de inspirações que fossem me distanciar do verão carioca (sungas, biquinis, crianças brincando, muito sol, muito calor, água, enfim, um verão bem quente, gente muito bronzeada e de corpos divinamente desenhados), e saindo do verão carioca voltei ao mesmo verão nesse espetáculo, mas numa revisita sutil e muito inteligente.

Numa das fotografias dois sujeitos cujos traços físicos me lembram típicos cariocas, e claro, com o físico que a dança esculpe (e duas leggings totalmente fashion, brilhantes, mas que curiosamente aos meus olhos pareceram compor muito bem com o restante da foto), esta foi a fotografia que pra mim mais chamou a atenção, pelo movimento em suspensão, pela ternura emitida, ou sensação de ternura, pelo local, pela ironia de tudo aquilo, Sexualidade, Calor e a moda.

Mas as fotografias não me prepararam em absolutamente para o espetáculo, aliás, da primeira vez que fui foi deveras marcante, escolhi uma das cadeiras "desprezadas" pelos outros tantos espectadores que entraram antes de mim, aquelas da fila da frente, praticamente colada ao palco(cadeira na qual adoraria ter sentado novamente hoje), aprumei-me entre duas cadeiras vazias, me distanciando, relativamente, de dois outros espectadores. Tive uma vã esperança de que os lugares ficassem vagos por todo o espetáculo, mas não foi bem o que aconteceu, não muito depois de me sentar um casal me abordou, pedindo para escolher uma das outras cadeiras que tinha deixado de lacuna, porque desejavam sentar juntos, foram educadíssimos, então retribuí a educação escolhendo, ao acaso uma que me parecesse ainda permanecer no meio.

Friozinho típico de salas de espetáculo, casaco nas mãos, uma ecobag com papéis (sim, eu estava desenhando durante quase todo este tempo, na verdade fui abordado por uma das organizadoras do espetáculo porque desenhava as fotografias expostas), como todo espetáculo, me encolhi na minha cadeira de ansiedade.

O início foi uma cena um tanto quanto estranha aos meus olhos, 5 bailarinos encapuzados com meias, ou algo semelhante, parados, num contraste de cena quase barroco, entendi o simbolismo a medida que "as meias eram retiradas", a morte ou, num segundo momento pensei, se tratassem de frutas sendo estirpadas prematuramente de seus galhos - o que pode dar origem a uma outra interpretação, frutas, sementes, semear, vida nova, renascer.

O que se seguiu foi algo que posso descrever como uma "cena cinematográfica" embebida em tons sépia, o ar bem esfumaçado e a luz focada num bailarino com os pés ao alto. Dá-se uma serie de movimentos que me pareciam traduzir uma briga, entre ele e um "rival" obscuro e a priori desconhecido do público- invisível. (há que se comentar, esta sequência se deu de formas diferentes nas duas vezes que assisti ao espetáculo, na segunda ela foi aparentemente bem encurtada, o que enfatizou o efeito dramático da mesma -gostei da mudança).

Quase no fim do espetáculo há uma linda sequência em homenagem à Elis regina e Lenis Dale, uma dança composta com Bruno Cezario e Joaquim Tomé, o figuro confesso que me lembrou roupa de luta greco-romana mas a iluminação e a coreografia fazem com que o efeito da roupa seja eclipsado completamente, e a música? "São dois pra cá e dois pra Lá" (não é este o nome, mas bem que poderia ser).

Não vou descrever por "ordem cronológica" o espetáculo inteiro, tampouco esmiuçar o que entendi ou deixei de entender, mas adianto que valeu cada centavo que gastei e valeu cada minuto, há um efeito dramático forte, ouve-se nitidamente a respiração dos bailarinos, movimentos vigorosos, tensos, e isso é algo que eu sinto em muitos momentos, a exaltação, a ansiedade, a tensão no ar, em contrapartida momentos suaves - mas não menos vigorosos - de uma delicadeza ímpar, a luz e a música, como em todo o espetáculo, dando inigualável contribuição (aliás, há em alguns momentos cortes abruptos nos efeitos de luz e som, sendo clara a intenção de projetar a coreografia, a dramaticidade do bailarino, sem tirar nem por, achei ótimos os momentos, muito bem escolhidos).

E sobre os bailarinos o que dizer? Corajosos, audaciosos, vigorosos, excelentes, tive, como não poderia deixar de ter, até mesmo pela composição do todo, um olhar especial voltado ao que chamaria de "ator principal", chamado Bruno Cezario, seus movimentos em momentos solo são divinos e brilham com uma luz única (enfatizados pelo figuro, moderno, ousado, inesperado), seu corpo, esculpido com muito trabalho e a rigidez que a dança demanda, consegue ganhar leveza, delicadeza, suavidade e transmitir de igual forma tenacidade, força, virilidade, e não obstante sua expressividade é simbólica. Seus traços corroboram e muito na composição do que eu chamaria de personagem revolto, olhos grandes e expressivos, lembrando persas, bem como o nariz, rosto com formato bem acentuado por sua barba de desenho diferenciado, cabelos crespos e relativamente curtos. De fato um bailarino bem diferenciado (também por seu interesse em introjetar-se em vários outros campos do espetáculo, ao observar a ficha técnica, percebe-se que também é diretor).

Vale a pena assistir.

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